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'Estão pensando duas vezes’: a profissão que está ‘sumindo’ no Brasil e em SC

A categoria envelhece em Santa Catarina, enquanto uma combinação de riscos, longas jornadas e falta de estrutura afasta cada vez mais jovens da boleia. O Brasil perdeu cerca de 1,2 milhão de caminhoneiros na última década e Santa Catarina segue o mesmo caminho: a profissão envelhece, enquanto cada vez mais jovens evitam assumir a boleia

'Estão pensando duas vezes’: a profissão que está ‘sumindo’ no Brasil e em SC
'Estão pensando duas vezes’: a profissão que está ‘sumindo’ no Brasil e em SC (Foto: Reprodução)

Em 2025, Setransc (Sindicato das Empresas de Transporte de Cargas e Logística do Sul de SC) divulgou que o estado tinha até 8 mil caminhões parados por falta de motoristas, representando um prejuízo mensal de R$ 30 milhões.

Segundo o SETCESP (Sindicato das Empresas de Transportes de Carga de São Paulo e Região), o alto número de perdas de caminhoneiros é resultado de aposentadorias, migração para outras áreas e desinteresse das novas gerações. Atualmente, menos de 20% dos caminhoneiros têm menos de 30 anos, enquanto quase metade já ultrapassa os 45.

Em Santa Catarina, o cenário é semelhante. Dados do último CAGED (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) mostram que a maioria dos caminhoneiros com carteira assinada tinham entre 30 e 49 anos em 2025.

Além disso, o índice de rotatividade entre as empresas chega a 97,5%, enquanto o tempo médio de permanência no emprego é de 14,8 meses, o que indica um mercado instável e com trocas frequentes de trabalhadores.

Luiz Henrique da Cunha Souza começou a trabalhar como caminhoneiro aos 25 anos

Foto: Arquivo pessoal/ND Mais

Luiz Henrique da Cunha Souza começou a trabalhar como caminhoneiro aos 25 anos, depois que já estava há três anos dirigindo ônibus pelas estradas de Santa Catarina. Atualmente, com 29 anos, o morador de São José, na Grande Florianópolis, fica meses fora de casa percorrendo o país de ponta a ponta.

'A última viagem que fiz, saí no dia 24 de janeiro e voltei no dia 10 de abril, uns dois meses e meio viajando sem pisar o pé em Santa Catarina. Conheci vários lugares, fui para a Bahia, Goiânia, São Paulo, Ceará… Quando eu tenho tempo entre o carregamento e a descarga, eu pego um aplicativo e vou conhecer a cidade. Estive em Cabo de Santo Agostinho (PR), em Porto de Galinhas (BA), pontos turísticos que pude conhecer por causa do trabalho”, relatou.

O motorista afirmou que nunca se imaginou trabalhando atrás de uma boleia, mas se apaixonou pela profissão devido à possibilidade de conhecer novos lugares, pessoas e culturas.

Carregamento de caminhão do Luiz Henrique

Foto: Arquivo pessoal/ND Mais

“Eu queria conhecer mais lugares. Nunca pensei que eu ia trabalhar com caminhão, mas acabei indo e gostando. Até tentei sair, mas não consegui. É uma paixão da qual eu não consegui mais sair, apesar das dificuldades que se passam na estrada”, apontou.

O que tem afastado os jovens caminhoneiros das estradas?

São vários desafios enfrentados por quem troca a casa pelo caminhão, mas entre os principais, Luiz relata a insegurança, falta de estrutura para necessidades básicas (como paradas para dormir e tomar banho), qualidade ruim das rodovias e carga de trabalho exaustiva.

“Mesmo a lei exigindo descanso do motorista de 11 horas, já passei por empresas que não davam bola para isso, então passava quase três dias sem dormir direito, dormindo só uma hora ou duas. Mas atualmente está bem mais tranquilo e consigo fazer minhas paradas a cada 5 horas”, relatou.

Segundo a PRF (Polícia Rodoviária Federal), a privação de sono gera falta de atenção e eleva significativamente o risco de acidentes. A Lei nº 13.103 de 2015 prevê que o motorista de caminhão deve descansar pelo menos 11h a cada 24h de direção, sendo pelo menos 8h de forma ininterrupta.

“Geralmente motorista que trabalha com comissão é dessa forma, quanto mais ele trabalhar, mais ele vai ganhar e isso, na minha opinião, bota a vida não só dele em risco, mas a minha vida em risco e de outras pessoas também”, destacou Luiz.

Além de colocar a vida em risco, os caminhoneiros precisa passar longos períodos longe da família, dirigindo por horas em uma cabine solitária. “Essa profissão te proporciona dar uma vida boa pra as pessoas que tu ama, mas em troca a tua família tem a tua ausência. Hoje eu posso proporcionar o melhor para minha filha, mas eu não estou vivendo esse melhor junto com ela”, lamentou.

Na visão de Luiz, esses problemas têm afastado cada vez mais trabalhadores da profissão de caminhoneiros, que já o salário não supre toda a insegurança causada pelas estradas. De acordo com o profissional, a renda bruta mensal de um caminhoneiro varia entre R$ 7 mil e R$ 11 mil.

“É por isso que as pessoas estão pensando duas vezes antes de ir para a estrada. Se a minha filha disser um dia que era ser caminhoneira, eu faria de tudo para ela não ir para estrada por causa do nível de insegurança que está acontecendo nas estradas”, completou.

Por : NDMais

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